No meio de um mar de casas na zona sul de São Paulo, uma quase praia. Areia fofa, concreto e um desafio tão improvável quanto a paisagem.

– Eu jamais imaginei jogar vôlei de praia. Jamais. Jamais! – afirma Paula Pequeno.
– Na verdade eu estava só batendo uma bola, para não ficar parada. Mais pro lado de saúde do que profissional – explica Mari.

Isso mesmo. Mari e Paula Pequeno. Campeãs olímpicas na quadra. Inseparáveis fora dela. E agora a nova dupla brasileira do vôlei de praia.

– É, são 20 anos de amizade, 20 anos de luta, de glória, sofrimento, dor… Recuperação, choro, risada… Ainda bem que muito mais risada do que choro, né? A gente sempre se emociona quando senta para lembrar. Porque a gente, nesses 20 anos, compartilhou tudo – diz Paula.
 

Elas compartilharam o primeiro ouro olímpico, inclusive, do time feminino de vôlei, nos Jogos de Pequim 2008. A Paula ainda foi bicampeã em Londres 2012.
Juntas na seleção e pelo mundo. Dividiram também quadra no Fenerbahçe, da Turquia, e no Osasco. Aliás, onde tudo começou.

– Eu chegando novinha, já vi a Paula. Ela jogava no adulto, eu falava: “Nossa, é a Paula Pequeno. Aí eu estava treinando, meu primeiro treininho , sentei para tomar água e ela falou assim: "Nossa, você tem um olho bonito, né?". Aí eu assim: “Nossa ela me elogiou, obrigado”. Até hoje eu lembro a primeira frase que ela me falou para mim, foi essa – lembra Mari.

Agora, na areia, com muito mais intimidade, as palavras nem sempre são elogios.

– Meu primeiro treino foi assustador! Eu falei: “Meu Deus, eu não quero isso! Eu odeio isso!” – recorda Paula.
 

– Eu achei que ela ia chorar no primeiro treino. Ela saiu com uma cara de choro e falei: “Paula, calma, primeiro treino é assim mesmo.” Até o oitavo ela estava com a mesma cara e eu falei: “Calma que vai passar”. Ela falou: “Se não passar esse ódio que eu estou da areia, você vai ver!” – completou Mari

Quem já fez essa transição das quadras para as areias há alguns anos foi Jaqueline Silva. Se Mari e Paula estão na areia há dois meses, Jackie se tornou a melhor do mundo nos anos 90. E já foi campeã olímpica na estreia do vôlei de praia Atlanta 1996.

– Fisicamente é mais desgastante. Você imagina que numa superfície de quadra você usa um tênis, divide a quadra com mais cinco pessoas e é mais fácil. A partir do momento que você vai para a areia, tira o tênis, você naturalmente afunda. Naturalmente vai ter que puxar mais sua tração com a questão da areia para saltar a mesma coisa. Mas são adaptações, tudo é adaptação – analisa Jackie.

fonte: globo.com